sexta-feira, 25 de março de 2011

da andaluzia (parte I - sevilha)


entrei num leve desespero ao tentar começar a escrever esse post quando percebi que não lembrava de nada da viagem! mas aí respirei fundo e fui vendo as fotos, dando uma olhadinha nos mapas e - com uma ajudinha da wikipedia, claro - as memórias foram voltando.


então, fomos para andaluzia de carro, rumo ao sul da espanha, com grandes expectativas, tanto em relação ao que veríamos como ao que sentiríamos: fugir do frio era a melhor opção e sabíamos que - ao menos no verão - as temperaturas na andaluzia chegavam a 50º. QUE? isso mesmo, cinquenta graus. eu pensei que nesse calor as enzimas desnaturassem e a gente morresse e sei lá mais o que, mas acho que não, né?


enfim, esse post não vai ser totalmente linear, porque não lembro do passo a passo e de vários pequenos detalhes da viagem (pô, faz quase três meses! mas quem manda demorar tanto pra postar, né mesmo? problema meu), vamos ver no que dá.


chegamos em sevilha no final da tarde, depois de algumas horas dirigindo nas estradas maravilhosas da espanha (é divertido ver a surpresa dos alemães quando dizemos o quanto as estradas espanholas nos parecem boas. ai... uns com tanto e outros com tão pouco!). como sempre, estacionar foi um parto - e se tivesse sido um parto de verdade, teria sido de risco. sério. foi muito, muito ruim de encontrar um lugar decente pra estacionar que não fosse muito, e eu digo muito, longe para andarmos a pé -, mas sobrevivemos e conhecemos um pouco do centro cultural da cidade. assim, sem grandes pretensões, só caminhando pra olhar em volta mesmo, e foi muito bom, a cidade passa uma sensação ótima - aparte de muito cocô de cavalo aqui e ali.


luzezinhas e laranjeiras nos recebendo em sevilha.


comemos tapas e bocadillos num bar e restaurante próximo à catedral, perto também de onde vimos uma batucada no meio da rua. os gringos todos loucos com o ritmo da percussão que nem era ruim, devo salientar. mas acho que o chefinho do grupo deles era brasileiro, quase certeza.


depois de algum tempo de qualidade na noite sevilhana, fomos deixar nossas companheiras de viagem na casa de uma amiga nossa e então retornaríamos ao albergue. bem... nos perdemos feio antes de encontrar o piso dela. e ainda estávamos carregando muitas malas - maldita viagem de carro sem limites de bagagem para meninas. sofremos muito, andamos muito, mas encontramos, finalmente... um táxi pra despachar as meninas com suas malas e voltamos para o hostel, horas depois de termos iniciado nossas buscas pelo piso perdido. dormimos o sono dos justos depois de conhecermos a sevilha underground.


no dia seguinte, fomos à catedral e à giralda, anteriormente uma grande mesquita - sevilha, como parte da andaluzia, sofreu grandes influências mouras devido não somente à proximidade da áfrica como à ocupação dessa região pelos mouros por praticamente cinco séculos, além do fato de sevilha estar estrategicamente posicionada na beira do rio guadalquivir, rota comercial navegável da região. woo!


catedral e la giralda.


enquanto esperávamos na fila pra entrar na catedral, algumas senhoras se aproximaram oferecendo raminhos como um presente. você diz que não tem nada para ajudar, mas a senhora insiste que é somente um presente, então, você simplesmente aceita e sorri - não fiz isso, sigo com a história de forma didática pra todos que lêem -, ao que a senhora vai pedir uma ajudinha, qualquer quantia módica de dinheiro em troca de sua gentileza. você diz que não tem e sente muito, quando ela insiste que qualquer quantia de verdade a deixaria contente, então você tira algumas moedinhas e entrega pra ela, que faz uma cara de descontente, pega o raminho e vai embora.


essa é uma situação possível. outra é que a senhora se aproxima de você, toma sua mão e começa a ler sua sorte e seu futuro mediunicamente e, antes que você pudesse sequer processar todas as informações genéricas que ela disparou, ela cobraria pelo menos uns cinco euros. por mão.


a dica é: quando vir alguma senhorinha se aproximando, diga em bom tom "no tengo dinero!" e se faça firme até chegar sua vez de entrar na maldita catedral.


passando pelo portão da catedral, encontramos el giraldillo, uma estátua do renascimento que retrata, provavelmente, a deusa atena e representa a vitória do cristianismo sobre os muçulmanos. entretanto, a estátua que está logo depois da entrada da catedral é uma cópia do giraldillo original, que está no topo da giralda e gira de acordo com a direção do vento - agora alguém me explica como uma estátua de mais de três metros e pra lá de cem quilos gira com o vento?


fake giraldillo.


a catedral é bem bonita por dentro, bem opulenta: muito ouro, altares enormes, grandes rosáceas nas paredes... destaque para o teto bem esculpido e o suposto túmulo de cristóvão colombo.


cristóvão?


antes de subirmos os incontáveis andares da giralda, passamos por um pátio interno cheio de laranjeiras - pena que elas são tão azedas que é impossível depender delas pra lanchar. o cheiro, no entanto, é ótimo e, apesar de estarmos no inverno, ainda era possível sentí-lo bem. na primavera, sentir o cheiro das flores de laranja deve ser uma experiência ótima!


giralda entre os galhos de laranjeira.


subimos os andares da giralda e, a cada janela, tínhamos um mirante da cidade. interessante ver que, além de escadarias, a torre tinha grandes rampas, por onde os cavalos levavam as carruagens das pessoas mais importantes, na época dos cristãos, e dos pobrezinhos muçulmanos responsáveis por subir várias e várias vezes ao dia pra cantar lá de cima e chamar todos na hora de rezar (adhan, o canto pra rezar, era realizado cinco vezes ao longo do dia. no gogó. nas mesquitas mais modernas, utilizam microfone e um sistema de caixas de som). atualmente a giralda é a torre de sinos da catedral de sevilha.


cada janela... 

... um flash!


como estávamos um pouco atrasados para o walking tour e já havíamos entrado na catedral e na giralda - maiores ícones da cidade -, só passamos pela frente do alcazar e seguimos nosso caminho. além do mais, nos disseram que, já que planejávamos ver o alhambra, em granada, o alcazar de sevilha era completamente dispensável. era agradável e conveniente acreditar - e não nos arrependemos.


portal da saída do pátio da catedral (e a própria ao fundo) 

alcazar de sevilha, you belong to... gryffindor!


caminhando até encontrarmos o ponto de encontro do walking tour, vimos um pouco mais de sevilha: percebemos suas numerosas ruelas fazendo vezes de corredores de vento, muito sábio da parte deles, já que no verão chega a ser tão quente - e esses corredores realmente funcionam, porque além de direcionarem as correntes de ar, providenciam uma sombrinha quase que o dia inteiro -, passamos por vários pátios e jardins, predominantemente de influência árabe, que costumavam deixar as portas de suas casas abertas para que as pessoas passassem, vissem e comparassem seus pátios e jardins com os dos vizinhos.


 safados responsáveis por tanto cocô na rua.

coisa linda e giralda ao fundo (com giraldillo no topo, pra quem tiver olhos de águia) 

pátio! :)


agora é quando eu perco minha linearidade e começo a falar aleatoriamente sobre as histórias que eu me lembro do walking tour. nós demos uma volta pela cidade com a guia que era alemã, acho, e muito boa. sério, acho que foi a melhor guia que tivemos até agora.


sevilha é uma cidade com muitos personagens famosos. passamos por uma estátua, por exemplo, de don juan aka don giovanni. sim, o grande sedutor. ele é personagem do drama trágico de tirso de molina, "el burlador de sevilla", ou "o sedutor de sevilha". e acabei de encontrar, inclusive, um poema sobre don juan chamado "el estudiante de salamanca".


don giovanni.


outra personagem marcante de sevilha é carmen, da ópera de bizet. vimos a fábrica em que ela supostamente trabalhou. uma cidade que tem personagens como don juan e carmen está muito bem acompanhada, se é que você me entende.


prédio que teria sido a fábrica onde carmen trabalhou. 


além disso, lembrei muito d'o barbeiro de sevilha, que - claro - também tinha a cidade como palco. a ópera de gioachino rossini, no entanto, não foi citada pela guia e eu também não lembrei de perguntar depois, infelizmente.


personagens fictícios (?) à parte, conhecemos a história de suona ben suzón, uma judia convertida ao cristianismo, na época em que os cristãos dominaram a cidade e impuseram sua religião aos judeus e muçulmanos que viviam por lá. acontece que suona, ou susona, se apaixonou por um soldado. acontece também que o pai da moça era um líder revolucionário. acontece, acima de tudo, que suona, sabendo de planos de revoltas, pediu ao seu amor que não estivesse no horário e local das tais revoltas, ao que ele não somente ouviu com atenção, mas repassou aos seus superiores, que ordenaram a prisão e morte de toda a família da garota - menos dela. além da reprovação de todos, ela ainda teve que seguir com a culpa de ter causado a morte de toda sua família por um rapaz que acabou com ela. pesado. alguns dizem que ela entrou pr'um convento, enquanto outros dizem que teve sua cabeça cortada pela traição. façam suas apostas.



calle suzón com sua placa condizente.


e aqui foi onde a cabeça de suona ficou supostamente exposta.


e já que estamos em histórias trágicas, temos também doña maria coronel, bela moça que teve seu namoradinho morto pelo rei pedro I porque ele era afim dela. acontece que o rei, chamado de pedro, o cruel, também era horrível e muito insistente. doña maria, desesperada, sem mais alternativas, derramou sobre si um caldeirão de óleo fervente, esturricando-se e fazendo crer que tinha lepra, no que o rei finalmente a deixou em paz. essa é outra que dizem que não só entrou, como fundou um convento.


o tal pedro I tem outro fato curioso: além de cruel, horrível (estou resumindo nisso, mas o pacote de adjetivos é longo) e insistente, ele também tinha língua presa. nossa. acontece que ele era considerado um grande justiceiro por boa parte de seus súditos, vai entender! finalmente, não se sabe se por medo de suas crueldades ou em homenagem à sua justiça, todos começaram a pronunciar o espanhol tal e qual o rei o fazia: com a língua presa, ou "ceceo", típico do sotaque andaluz. uma historinha simpática pra descontrair :)


as raízes de cristóvão colombo são cobiçadas e disputadas por diversos países, todos querem um pouquinho dele nos seus ancestrais. acontece que, de acordo com a história por trás da história, cristóvão colombo cobiçava algumas coisas também: a mulher alheia. dizem as más línguas que ele e a rainha isabel, que lhe foi como um anjo em suas jornadas de descobertas, tinham um caso bem debaixo do nariz do rei ferdinand, o rei banana (ou o rei sem-banana... já que as mesmas más línguas diziam que ele comia testículos de boi pra tentar fazer os seus próprios funcionarem). eeenfim... teoria da conspiração ou não, são vários pequenos indícios de que os dois teriam tido um caso, desde o lado do nome da rainha cravado na caravela até duas... erm... coisinhas penduradas do lado do nome do rei nessa mesma caravela. escolha seu lado da história.


monumento a colombo com o nome da rainha do mesmo lado do seu - o do rei está no outro lado do navio - e com coisinhas penduradas representado a hombridade ausente de sua majestade.


seguimos o tour na plaza de españa, localizada no parque maria luisa, entre um mundo de laranjeiras e palmeiras. é uma praça lindíssima (tá, essa ganhou da de salamanca. de verdade) em semicírculo, com uma grande fonte no centro, pontes radiais e contornada por dentro por azulejos retratando cada província da espanha, acompanhados de bancos e pequenas estantes utilizadas para troca de livros. isso ou eu inventei que eram utilizados pra troca de livros. de qualquer jeito, além dos passeios de barco pelos canais e dos prédios governamentais, a praça também serviu como cenário para os filmes lawrence da arábia e star wars!


 plaza de españa...

...com seus prédios importantes...

... e canais bonitinhos. 

burgos!


como não podia deixar de acontecer, passamos muito tempo correndo de um lado pro outro, tirando fotos... e nos perdemos do restante do walking tour. saímos correndo desesperadamente da plaza de españa atrás deles, fomos para um lado, fomos para o outro e, muito felizmente, os encontramos na frente de um teatro cuja história desconheço, porque estava ocupado demais recuperando meu fôlego.


depois do teatro, passamos por um antigo hotel onde muita gente famosa já ficou hospedada, nominadamente, johnny depp. sabe, essa guia era realmente muito boa, porque ela conseguiu atingir cada pessoa do grupo com uma informação que fosse. nessa, algumas meninas quase desmaiaram.


seguimos para o final do walking tour e, como última anedota, ela nos pediu que olhássemos para o chão, onde vimos "no8do" escrito numa tampa de esgoto. lembrei imediatamente que havia visto o mesmo símbolo em vários outros locais da cidade, mas não tinha me atentado para isso até então. a guia explicou que esse era o lema da cidade e significa que sevilha não nos abandonaria.


agora, pra partir de "no8do" para "sevilha não nos abandonaria", tenho que contar a história que deu origem ao lema. depois da reconquista de sevilha dos mouros pelos cristãos, o alcazar da cidade foi escolhido pelo rei ferdinand - não é o mesmo rei banana, hein? - como sua morada real. esse rei teve um filho, alfonso X, que foi um rei muito culto e amante das artes - o maldito era poeta, astrônomo, astrólogo, músico e linguista - e também teve um filho, sancho, que foi um sacana.


sancho, filho querido, tentou usurpar o trono de seu pai e teria bem conseguido se o povo da cidade não tivesse se insurgido contra ele e permanecido ao lado do rei alfonso, que, emocionado com a lealdade e carinho do seu povo, os presenteou com o tal "no8do". ainda não dá pra ligar um ao outro? certo. esse "8" não é o algarismo oito, mas sim uma figura que representa um tipo de novelo (se de lã ou tripas de porco, não tenho certeza), chamada madeja. logo, no-madeja-do... no me ha dejado aka não me deixou. no contexto da lenda, (sevilha) não me deixou. que final de walking tour, hein? claro que há outras explicações pro tal "no8do", como pra tudo mais em sevilha. nada parece ser absoluto nessa cidade, o que faz dela ainda mais encantadora.


e vale dizer que nodo quer dizer nó também, que é outro significado do símbolo no meio.


voltamos para o hostel, mas como não tínhamos reserva (sevilha é um cidade bem disputada, mantenham isso em mente. quartos... vagas... mesas... urgh!), decidimos por seguir à noite mesmo pra nosso próximo destino: cádiz.


no caminho, paramos em um hotel e dormimos por lá. nossa, que mudança. a diferença que há entre um albergue comum e um hotel comum são palpáveis, viu? dormimos felizes e saímos de lá com as baterias carregadíssimas e bombons grátis nos bolsos, prontos pra explorar o resto da andaluzia, sabendo que homem na linha, o trem não pega não, mas mulher na linha o trem pega.

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