sábado, 26 de março de 2011

da andaluzia (parte II - cádiz, gibraltar e málaga)


chegamos a cádiz no domingo e fomos parando a prestações, com medo de não encontrarmos uma vaga próxima ao hostel, mas não tivemos muitos problemas e paramos bem em frente à prefeitura - o que me deixou, na verdade, um pouco tenso também, apesar de termos encontrado uma ótima vaga. vai ver era proibido ou reservado, sei lá. nunca se sabe!


nosso albergue tinha um pró magnífico, que era um terraço com um clima agradabilíssimo, ainda mais pelo fato de que eles disponibilizavam vários pincéis para que escrevéssemos ou desenhássemos ou fizéssemos o que quiséssemos nas paredes, mas tinha também um contra terrível, que ele fedia. não vou ser cruel e dizer que o albergue era fedido, prefiro usar o termo estava fedido, que passa mais um sentido de transição, né? quase certeza que era problema no encanamento, porque se ele for... digo, digo, estiver sempre fedido daquele jeito, não tem como ter gente não.


mark twain esteve lá.


depois saímos em busca do que conhecer na cidade. encontramos um panfleto com quatro percursos de walking tour, cada um com um tema e uma cor diferentes. o mais fantástico é que o percurso de cada tour estava demarcado no chão com uma linha da cor correspondente! achei brilhante. não sei se seria viável em outras cidades, tanto por poluição visual como por mantença d'uma linha de sei lá qual extensão, mas pra cádiz funcionou muito bem. ponto pra cidade.


fizemos a rota medieval, passando pela catedral, arco de la rosa, sítio arqueológico, teatro romano e mais algumas coisas... poisé. a catedral não chama muita atenção depois de você ter visto tantas em tantas cidades, o arco de la rosa é qualquer arco de pedra num corredor, o sítio arqueológico poderia ter sido interessante, quem sabe, se tivéssemos entrado, o teatro romano estava em friggin reforma de emergência e não se podia ver nem nada dele e o resto das coisas não chamou atenção nem sequer pra valer uma fotografia.


 catedral de cádiz.

 arco de la rosa.

teatro romano... em obras.


ou seja, nosso walking tour foi um grande fail. talvez se tivéssemos tido um guia, com histórias interessantes e anedotas engraçadas... mas enfim, entre uma coisa e outra do tour, vimos também o prédio do jornal local, alguns transatlânticos aportados (o que me deu uma vontade enorme de fazer um cruzeiro. nossa, deve ser muito bom!) e uma grande revoada de gaivotas no mar, que havia sido a coisa mais interessante, até então.


meu. meu. meu. 

 capitão nemo! (double reference)
prédio do jornal e monumento da praça whatsitsname.


eis que começa a chuviscar e o céu a escurecer. seguimos até a puerta de la galeta, que abre caminho até o castillo de san sebastián (nome pomposo para um forte no final do caminho). incrível a velocidade com que a chuva engrossou, os ventos se fortaleceram, os trovões ficaram mais retumbantes e os raios bem, mas bem mais nítidos, à medidade que andávamos em direção ao castillo. antes de chegarmos na metade do caminho, o chuvisco havia se tornado um temporal e nós tínhamos que decidir entre voltar correndo pro hostel ou seguir correndo pro castillo.



oh boy...



la galeta.

atendendo aos três grandes princípios de boas viagens (não sei como só estou citando isso agora... são meus pilares, os fundamentos de todas as minhas decisões) - economia, periculosidade e aventura -, seguimos correndo até o castillo. perdemos os guarda-chuvas no caminho, virados ao avesso pela ventania, vi o raio mais nítido e próximo que quero ter prazer de ver na vida e chegamos, enfim, ao bendito san sebastián, só pra descobrir que ele era fechado para visitantes. ao longe, vimos o transatlântico passando com suas luzes acesas. ah, como deve ser bom viajar de transatlântico!



raio invadindo minha foto.


castillo de san sebastián e queen elizabeth ao fundo. tchau :~


ok, correr de volta, né? e corremos. e nos abrigamos na catedral. santuário! estava fechando. maldição! nos encontramos encharcados, sem guarda-chuva e ainda debaixo de temporal na escada da catedral de uma cidade que não tinha nem sido boa de se visitar. merda. olhamos em volta e vimos mais algumas pessoas na mesma situação e, sabe como é, você fica mais sociável nesses momentos, fizemos amizade. corremos - ainda debaixo de chuva, é importante frisar - até o 100 montaditos, uma bênção que lhe oferece uma jarra de cerveza y un montadito por solo 2€ :D


o resto da noite foi de conversa com o mexicano, o costa-riquenho, o nicaraguense e a espanhola sobre um mundo de coisas totalmente inúteis, em sua grande maioria, mas que foram ótimas para esquecermos do pensamento que tivemos na escada da catedral. voltamos para o albergue fedido, nos secamos e dormimos felizes por ter chovido tanto - até porque, sem a chuva, só teríamos a economia, dos três princípios.


no dia seguinte, partimos de cádiz com direção a málaga, mas tivemos uma parada rápida em gibraltar, tecnicamente não uma cidade andaluz, mas sim inglesa. opa! território britânico na espanha, sim, essa é gibraltar, com seus ônibus e cabines telefônicas e soldados e mão inglesa e tudo mais que é britânico, inclusive ingleses de verdade.


no caminho pra imigração (dicona, se vai a gibraltar, leve seu passaporte. não é como se você entrasse em outro país: você ENTRA em outro país), vimos dois carros arrombados. um deles, na verdade, estava sendo arrombado enquanto passávamos por ele. oportunistas aproveitando o mundo de carros estacionados por quilômetros a fio. e logo veio a tensão do nosso carrinho alugado ter o mesmo fim. e o pior: com tudo que é nosso lá dentro!


mas nada podíamos fazer a não ser confiar e seguimos nosso destino, caminhando enquanto víamos a sombra do continente africano do outro lado do mar. chegamos na fronteira: burguer king e kfc reinando nas placas, inglês britânico sendo entoado mais alto que o espanhol andaluz e sem fim de sacolas de compras. gibraltar é como uma grande duty free, geral encara como se fosse só um shopping center superdesenvolvido.


bom, até aí foi o que eu vi. depois disso, você pode andar pelas ruas da cidade, ver macacos, subir num teleférico, ter uma vista melhor da áfrica, ver mais macacos, descer no teleférico, ver a troca da guarda e fim, mas não vi nada disso porque deixei meu passaporte em casa. pronto, falei. fui o mais entusiasta em não esquecer nenhum documento importante e esqueço justo meu passaporte? casa de ferreiro, espeto de pau, é o que dizem.


 gibraltar!

 pertinho da fronteira.

 mama áfrica ao longe.

no paparazzi, please.


mas sabe de uma coisa? sabe de uma coisa? tudo bem, porque eu não precisei ver a áfrica de um melhor ângulo: eu fui pra áfrica depois. e nem precisei dos macacos de gibraltar, vi os de marrakech. e vi a troca da guarda no palácio de buckingham. e teleférico eu posso usar o de ubajara quando voltar pra fortaleza. e sim, esse foi o parágrafo mais amargo que eu escrevi desde que comecei esse blog, mas me deixem em paz, não conheci gibraltar e poderia ter mentido, porque tenho fotos, mas não o fiz. meu compromisso é com a verdade. seguem fotos do que eu não vi - e nem me fazem falta, friso (juro, nem fazem. serião).


no lugar de ver tudo isso - gente, tô muito amargo - fiquei tomando conta do nosso carro. lendo uma revista, ouvindo música... esse tipo de coisa. até que todos retornaram e seguimos nosso caminho para málaga.


chegamos lá à noite, demos uma olhadinha nas redondezas do albergue - conseguimos uma vaga tão próxima que eu quase derramei uma lágrima, sério! - e fomos dormir pra recarregar as energias.


levantamos no dia seguinte e fomos direto atrás do nosso walking tour, desesperados com nosso atraso. na verdade, tínhamos certeza de que não conseguiríamos e praticamente desistimos no meio do caminho, mas chegamos lá e não tinha começado ainda. ufa! a verdade é que só tinha uma menina, americana, esperando o tour começar, então o guia atrasou mais um bocadinho pra ver se chegava alguém e - tcharam - nós chegamos.


o guia era australiano e fez um tour muito bom. foi engraçado me adaptar ao sotaque do inglês dele pra entender tudo direitinho, mas sem grandes problemas.


começamos o tour na plaza de la merced, onde, num banco, há um senhor sentado com um caderninho e um lápis em suas mãos, olhando para onde os pombos costumam passear, provavelmente esperando algum que sirva de modelo para seus desenhos. o senhor é ninguém menos que Pablo Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno María de los Remedios Cipriano de la Santísima Trinidad Ruiz y Picasso, que teve seu talento descoberto pelo seu pai, também artista, quando este viu um rascunho que seu filho fizera de um pombo.


picasso e sua paquerinha. 

obelisco em honra a heróis.


apesar de natural de málaga, picasso morou na cidade somente até seus dez anos de ano, quando se mudou para la coruña, na galícia. málaga, no entanto, se orgulha de ser o berço do cubista e tem ainda um museu em sua homenagem. outro malagueño famoso é antônio banderas, mas você não encontra estátua nem museu dele pela cidade.


saindo da praça, passamos pela iglesia de santiago, especialmente importante por seu estilo caracteristicamente andaluz, chamado mudéjar, que consiste na mescla entre o árabe e o cristão, associando aspectos de ambos.


pooorta número um... 

... ooooou porta númer- opa, selaram essa. deixa pra lá.


uma história que envolve a igreja é que, todos os anos na semana santa, uma procissão saía dela com andores enormes, que nunca conseguiam passar pelos portões, e, preguiçosos, ninguém reformava os malditos para deixá-los mais amplos - ou sequer mudavam o andor, deixando-o menor, mas enfim -, preferindo forçar um pouquinho a passagem, o que desgastava o arco da entrada. fim. meio sem emoção, né?


acontece que, num certo ano, na época dessas procissões, um grande surto de cólera abateu a cidade, matando muitos e deixando muitos mais debilitados, sem forças para carregar os andores enormes, e os que tinham saúde, faltava-lhes a coragem para sair de casa com a doença impregnando.


a notícia de que não haveria procissão correu a cidade inteira, inclusive dentro das prisões. os condenados ficaram sabendo e, sem que houvesse tempo sequer pra planejarem alguma coisa, irromperam de suas celas, imobilizaram os guardas e cruzaram os muros de suas prisões, seguindo rapidamente para a igreja, tomando o andor de nuestro padre jesús el rico, seu padroeiro, e realizando eles mesmos a procissão, retornando às suas celas por livre e espontânea vontade quando terminada.


dizem que o rei carlos, tão contente com o que havia passado, decretou uma lei que ordenava a libertação de um prisioneiro a cada quarta-feira santa, em retribuição às intenções puras dos prisioneiros de então. a lei, diga-se de passagem, continua em vigor.


seguimos com o tour para o teatro romano. ha! sabia que não voltaria pra casa sem ver um, eu sabia! o teatro data do século I antes de cristo, construído na época em que a espanha era território romano. málaga, na verdade, é uma das cidades mais antigas do mundo - de novo, DO MUNDO -, com cerca de 3000 anos de história, desde sua fundação, pelos fenícios, passando pela sua época romana, então árabe e cristã.


projeção de voz... vai!


vimos a catedral da cidade, a santa iglesia catedral basílica de la encarnación, que teve sua construção alargada por três séculos, unindo diversos estilos em sua fachada. além disso, o átrio da igreja serviu de cenário para dorothy dandridge no filme moment of danger.


 encarna de lado.

encarna de costas.


passamos pela plaza constitución, antiga plaza mayor da cidade, com placas de ferro no chão com a constituição marcadas nelas. também na plaza estão a casa do consulado e a fuente de génova, a fonte que mais viajou no mundo que eu tenha notícias. não lembro direito seu trajeto - tampouco encontrei na wikipedia -, mas lembro bem que ela foi transferida várias vezes de lugar, inclusive porque a população local não ia muito com a cara dela, e foi também roubada por piratas e recuperada e reclamada pela população que a reijatara. é uma história louca de um amor obsessivo e rejeição.

 plaza constitución.

fonte aleatória. pegadinha!

fonte de génova.


passamos pelo mercado da cidade antes de seguirmos para a rua marqués de larios, uma das ruas comerciais mais caras da espanha, nomeada em homenagem ao empresário que basicamente comprou essa rua inteira e incentivou fortemente a indústria malagueña no século dezenove.


nham! 

a rua do marquês.


seguimos no tour pelo paseo de los curas, com uma história terrível da época da guerra civil espanhola, envolvendo bombardeios, assassinatos covardes e covas comunitárias. continuamos andando até uns jardins aos pés do alcazaba, uma fortificação moura do século XI, onde, além de inúmeras laranjeiras, claro, se encontra também a estátua el biznaguero, um vendedor de biznagas - chamados assim os ramalhetes de jasmim em forma mais ou menos esférica, símbolo malagueño - superdramático, que mira o sol.


el biznaguero. 

jardim aos pés do alcazaba. 

burrinho que aparecia em todo canto e ninguém sabe o porquê.


e ali, aos pés do alcazaba, ficamos sabendo da história que talvez explique a siesta dos espanhóis. na época da reconquista espanhola, um dos líderes árabes fora preso num castelo em granada, a última cidade a ser tomada do poderio mouro, e sentenciado à morte. antes disso, no entanto, ele pediu uma entrevista com o rei e a rainha, e como ele próprio era nobreza, esse pedido foi aceito. acontece que o mouro não tinha um espanhol muito bom e muito menos os soldados espanhóis eram fluentes em árabe, no que sua comunicação se resumia a gestos e algumas palavras.


quando o líder muçulmano chegou ao salão do rei, os soldados disseram alguma coisa que ele não compreendeu. ele, então, encontrou um senhor e uma senhora muito bem vestidos, claramente nobres, e, sem pensar duas vezes, sacou sua espada escondida e assassinou ambos, sendo morto imediatamente depois pelos soldados, mas tendo alcançado seu grande objetivo de matar a realeza espanhola... ou foi nisso que ele morreu acreditando: o que os soldados haviam dito era que o rei e a rainha estavam na sua siesta e ele seria recebido por um duque e uma duquesa - esses sim, executados pelo mouro.


moral da história: durmam a siesta e salvem suas vidas, aconteceu com o rei, acontece com você também. vai ver é um jeito de se sentir mais próxima da realeza, né?


nos despedimos de málaga contentes, seguindo para nosso penúltimo destino: a cidade de granada.


tchau, malagueños!

Um comentário:

Talyta Issa disse...

saudade eurico, seus textos sao mto bons =)